Tempo

Tratado em nossa Casa como um Orixá, Tempo seria, em sua origem, um Inquice do culto de Angola. É o grande pára-raio dos Templos e dos Babalorixás. Grande é a discussão se há equiparação e se os Inquices do culto de Angola, os Orixás do culto Nagô e ainda os Voduns deveriam ou não ser tratados como um mesmo conceito. O tão discutido sincretismo, efeito natural em um movimento de confluência de tantos sistemas de crenças num mesmo local – o Brasil –, e sua contraparte, a busca pela pureza dos cultos, formam uma das maiores discussões atualmente no meio religioso brasileiro. Nossa Umbanda, no entanto, não participa dessa discussão. Somos exatamente o resultado da mistura, da convivência e da multiplicidade tão características de nosso povo.

Nas palavras de Ivete Previtalli, “A questão do sincretismo no candomblé, não só entre os diversos elementos das nações, mas também com os santos católicos, como vimos, é uma questão que exige muito cuidado ao ser analisada. Percebe-se entre os sacerdotes entrevistados, seus filhos de santo, enfim, entre os adeptos do candomblé, que todos sabem, por exemplo, que o inquice Matamba não é Iansã e também não é Santa Bárbara, mas que em alguns momentos podem ser uma só.”1

Entendemos as distinções marcantes e ainda a singularidade de cada forma de expressão religiosa. Sabemos, por exemplo, que Ísis não é, literalmente, Yemanjá. No entanto, entendemos que, frutos de momentos históricos diversos e mesmo de civilizações bastante distintas, ambas as mencionadas deusas seriam representações do mesmo princípio original feminino: a Grande Mãe. Assim, com o devido entendimento, tratamos Orixás, Inquices, Vonduns, Santos, Budas ou Netheres como expressões ou qualidades de um único Deus.

Se tradições diferentes chamam esse Deus por nomes diferentes e dedicam a Ele um culto distinto, entendemos que se dirigem a uma mesma Força e a um mesmo Princípio. Se um brasileiro colhe uma fruta e a chama maçã, um estadunidense poderia chamá-la apple e um espanhol manzana, mas estariam se referindo a mesmíssima fruta. Se cada qual a come de uma forma diferente, típica de sua própria cultura e tradição, quem poderia desqualificar seus métodos?

Tempo é, em nossa Casa, um Orixá. Nosso entendimento dessa Força em muitos momentos se aproxima do culto ao Iroco Nagô. Tempo seria a qualidade de conexão entre o plano telúrico – o Aiyê – e o plano divino – o Orum.

Por isso, seu campo de ressonância natural são as árvores. Inúmeras tradições prestam culto às arvores, que simbolizariam vitalidade, longevidade e pureza. “(…) o culto da árvore é muito antigo e está presente em várias religiões primordiais, como as tradições dos druidas, as dos antigos gregos e romanos e algumas religiões indígenas. Tendo em vista o estreito liame existente entre a árvore e a natureza, esse é um culto importante ainda hoje, em uma época em que o ser humano fala em ecologia e se preocupa com o futuro do planeta, ameaçado por constantes abusos”2. Essa ligação de Tempo com a Natureza e a ecologia explica, entre outros motivos, nossa relação estabelecida desse Orixá com São Francisco de Assis.

As árvores têm papel fundamental no culto e muitas vezes não nos damos conta da vitalidade desses seres divinos em nossas vidas. Mesmo em cidades grandes ou complexos industriais temos sempre a presença das árvores. Talvez nem percebamos sua presença, elas ali permanecem, com sua calma e sabedoria, zelando por nossas vidas. Dificilmente nos deslocamos, mesmo por distâncias curtas, sem sermos agraciados pela presença de Tempo. O ser humano contemporâneo, num mundo rápido e impaciente, comumente não atenta para a onipresença divina. Na terra em que pisamos está Omolu, na água que bebemos e nos banhamos estão Oxum e Yemanjá, nas árvores em nossos caminhos está Tempo-Iroco.

A relação desse Orixá com o resto do panteão é tão marcante em nossa Casa que valeria um livro inteiro por si mesma. Com todos os Orixás estabelece alguma relação e interação3 o que explica as relações de cores e mesmo a libação oferecida a este Orixá. Tempo assume, em nossa Casa, o senhorio do chão em conjunto com Xangô. Na tradição Nagô, por vezes encontramos a relação de Tempo-Iroco como irmão de Xangô4.

Essa relação nos serve para compreender a função conjunta assumida por essas duas Forças na guarda do chão de nossa Casa. No entanto, é na tradição Angola que encontramos a perfeita tradução do nosso entendimento na relação de Tempo como Orixá da família de Cavungo-Obaluaiê. Seria, nesse sentido, irmão de Omolu e, por conseqüência, de Oxumarê.

[1] PREVITALLI, Ivete Miranda. Candomblé: agora é Angola. São Paulo: Annablume; Petrobrás, 2008.  [2] MARTINS, Cléo. Iroco: o orixá da árvore a árvore orixá. Rio de Janeiro: Pallas, 2002. [3] Idem. Pg. 49 e seg. [4] Idem. Pg. 52

Origem do nome – Kitembo

Mantra – Zara Tempo Zara! (Salve, Tempo! Salve!)

Qualidade divina – Realiza a conexão entre o Plano Telúrico (Aiyê) e o Plano Divino (Orum)

Instrumento/Insígnia – Grelha e Escada

Sincretismo – São Francisco de Assis e São Lourenço

Astro canalizador – Plutão

Fase lunar – Cheia

Campo de ressonância – Árvores frondosas, principalmente as de raízes aéreas

Cor – Branco, marrom e verde

Número – 16

Odu – todos os odus

Flores – Qualquer flor branca, orquídeas

Essências – Madeira

Imãs (comida) – Canjica branca; pipoca; orobô

Libação (bebida) – Combinação de todas as libações

Metal – Ferro

Pedra – Pedra Madeira e Opala Andina

Datas comemorativas – 10 de agosto e 4 de outubro

Dia da semana – Segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira

Horário vibratório – Sol Nascente

Número de Folhas – 16

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